A cobertura sobre cigarros eletrônicos no Brasil se tornou uma linha de montagem de desinformação.

A proibição de cigarros eletrônicos no Brasil gerou caos, e a própria imprensa brasileira está culpando o vape em vez da proibição. Nas últimas semanas, diversos veículos de comunicação correlacionaram o uso de cigarros eletrônicos com diabetes, câncer e intoxicação de crianças pequenas, mas uma análise honesta das evidências aponta para um problema completamente diferente: a própria proibição.

Abra um site de notícias brasileiro neste mês e você encontrará cigarros eletrônicos sendo culpados por pré-diabetes, câncer bucal e colapso pulmonar. Muitos alarmes, uma estratégia recorrente: pegar um estudo com limitações reais, eliminar as ressalvas e publicar a manchete mais alarmista possível. O Brasil proibiu a venda de cigarros eletrônicos desde 2009 e, em vez de questionar se essa política está funcionando, a imprensa continua reciclando mitos que justificam a proibição, quando as evidências apontam para o contrário. Coincidência ou manipulação?

Uma correlação fraca é vendida como um novo perigo para a saúde.

Bossa News relatou um estudo da Universidade da Geórgia em Foco AJPM A reportagem associa o uso de cigarros eletrônicos a um aumento de 71% no risco de pré-diabetes, em comparação com 15% para cigarros tradicionais e 28% para pessoas que usam ambos. O que a reportagem omitiu foram as ressalvas comuns a um estudo observacional como este: nenhuma discussão sobre a composição da amostra, nenhum reconhecimento de variáveis de confusão, nenhum reconhecimento de que uma população que já fuma, bebe e se alimenta de forma diferente de não usuários produzirá correlações que não são as mesmas que o vaping causaria o risco. Revisões independentes da Public Health England, do Office for Health Improvement and Disparities do Reino Unido e da Cochrane constataram consistentemente que o vaping é cerca de 95% menos prejudicial do que fumar, uma lacuna que esta reportagem nunca menciona, enquanto trata uma associação mais fraca como prova de perigo equivalente.

Alertar para uma futura onda de câncer sem admitir que ela ainda não chegou não é ciência.

Guarulhos em maça O artigo citou uma revisão de 2023 de 22 estudos sobre danos ao DNA em células orais expostas ao vapor, bem como um estudo de 2025 do Instituto USP que constatou que a saliva de alguns usuários de cigarros eletrônicos apresentava concentrações de nicotina equivalentes a cerca de 20 cigarros por dia. Em seguida, o artigo contradiz seu próprio título: admite que não houve aumento significativo nos casos reais de câncer bucal no Brasil, apesar de anos de crescente uso de cigarros eletrônicos, e explica isso como uma defasagem entre a exposição e o desfecho clínico. Há apenas um pequeno (ou melhor, enorme) problema com tudo isso: os estudos foram conduzidos em placas de Petri. É amplamente reconhecido na comunidade científica que o estudo de células cancerígenas em placas de Petri apresenta muitos problemas e desafios significativos, como contaminação microbiana (por bactérias, fungos ou micoplasmas invisíveis), contaminação cruzada acidental entre linhagens celulares e perda de relevância biológica, uma vez que um ambiente bidimensional simples não consegue replicar a complexidade tridimensional de um tumor real no corpo humano.

Essa é uma hipótese (muito fraca) disfarçada de alerta. Uma manchete que promete um "aumento futuro" de câncer, baseada em dados de laboratório e na ausência de qualquer aumento real, está levando o leitor a pensar na direção errada, e é sempre a mesma estratégia.

Cigarros eletrônicos encontrados em operações antidrogas comprovam o fracasso da proibição.

Duas reportagens policiais recentes completam o quadro. Em Rio Verde, policiais invadiram uma loja e encontraram uma pistola, munição calibre .38, vários celulares de origem duvidosa e um grande número de cigarros eletrônicos. Na BR-153, uma história famosa, uma operação policial integrada apreendeu 755 quilos de maconha ilegal, além de 110 cigarros eletrônicos, em uma única batida. Essas histórias constroem um argumento implícito de porta de entrada: cigarros eletrônicos aparecem onde drogas e armas aparecem, logo, quem vende cigarros eletrônicos deve pertencer às mesmas redes que traficam drogas e armas. A própria petição da WVA à ANVISA sobre essa proibição específica deixa claro o mecanismo real: estima-se que 4 milhões de brasileiros já obtêm produtos de vaporização por meio do mercado informal criado pela proibição, sem nenhuma das garantias de qualidade ou segurança que a regulamentação proporcionaria, e esse mesmo canal ilegal é o que permite que organizações criminosas lucrem e dá aos menores de idade acesso mais fácil do que um mercado varejista regulamentado jamais permitiria. Cigarros eletrônicos aparecendo ao lado de maconha e celulares roubados é o que acontece quando um governo entrega toda uma categoria de produto à única cadeia de suprimentos ainda disposta a distribuí-la.

A desinformação deixa um rastro de vítimas.

Nada disso representa uma discordância neutra sobre como interpretar um estudo. Centro de Recursos da WVA Os dados mostram que a taxa de tabagismo na Suécia é de 5,31 TP4T e no Reino Unido de 10,61 TP4T, ambos países que adotaram o vaping como ferramenta de redução de danos, contra uma média da UE de 241 TP4T entre os países que não o fizeram. Essa diferença reflete a escolha política. A ANVISA, no Brasil, está considerando endurecer ainda mais sua proibição, o que criminalizaria os mesmos 4 milhões de pessoas que, ao longo de dezesseis anos, não conseguiu impedir de usar cigarros eletrônicos, e cada um dos mitos mencionados acima contribui para que esse endurecimento pareça razoável. Um fumante que lê que os cigarros eletrônicos causam diabetes, câncer e danos pulmonares, além de financiarem cartéis, não tem motivos para mudar. A WVA (Women's Vaping Association) tem demonstrado, em diversas apresentações, no Brasil e em todos os outros lugares onde essa luta acontece, que a regulamentação supera a proibição em todos os aspectos relevantes, e uma imprensa que continua reciclando alarmes desmentidos em vez de noticiar os fatos está fazendo o trabalho de relações públicas da proibição, uma manchete de cada vez.

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