Doses baixas de nicotina podem auxiliar na função cerebral? A ciência por trás disso e...

Dois artigos científicos diferentes, publicados em contextos distintos, apontam para a mesma verdade incômoda: a nicotina é mais complexa do que os slogans sugerem.

Em um estudar Em pacientes com Comprometimento Cognitivo Leve, pesquisadores administraram 2 mg de goma de mascar com nicotina e observaram melhorias estatisticamente significativas na memória de trabalho e no humor positivo em comparação com um grupo de controle. Embora não tenha sido um estudo de grande porte e não prove que a nicotina seja uma droga milagrosa, em condições controladas, baixas doses de nicotina demonstraram efeitos cognitivos mensuráveis.

Entretanto, um análise publicado em Fronteiras em Neurociência do Envelhecimento O estudo examinou o papel da nicotina em idosos cognitivamente normais. Os autores descrevem como a nicotina interage com o sistema colinérgico do cérebro, sistema esse profundamente envolvido na atenção e na memória. Diversos estudos revisados sugerem que a nicotina pode melhorar certas funções cognitivas, especialmente em indivíduos com um nível basal mais baixo. Mas aqui está o detalhe crucial: o benefício depende da dose.

A revisão destaca um ponto crucial: uma relação em forma de "U invertido". Doses baixas ou ótimas podem ajudar. Doses mais altas podem prejudicar o desempenho. Portanto, neste caso, a precisão é fundamental. O mesmo princípio se aplica ao estudo sobre Comprometimento Cognitivo Leve (CCL), no qual uma dose claramente definida de 2 mg foi administrada sob condições controladas.

Outro indício de que a conversa sobre a nicotina está evoluindo vem de discussões convencionais em neurociência. O Dr. Andrew Huberman, neurocientista da Universidade Stanford, já discutiu como a nicotina afeta o cérebro e seu potencial para melhorar o foco.. Ele explica que a nicotina interage com os receptores de acetilcolina, que desempenham um papel fundamental na atenção e no estado de alerta, e pode aumentar a sinalização da dopamina associada à motivação e ao envolvimento cognitivo.

Em todos os casos, esses pesquisadores partem de uma premissa fundamental: que a nicotina pode ter efeitos positivos e deve estar disponível em quantidades pequenas, mensuráveis e ajustáveis.

Não se pode falar sobre doses baixas sem ter acesso a elas.

É aqui que a contradição política se torna impossível de ignorar. 

Somente se os pesquisadores estiverem estudando os potenciais efeitos de baixas doses de nicotina é que a administração de baixas doses será possível. Fora de um laboratório, os adultos não interagem com a nicotina em miligramas, conforme descrito em um protocolo de estudo. Eles usam os produtos disponíveis. Se esses produtos não permitirem flexibilidade na concentração ou na forma de administração da nicotina, o controle eficaz da dose torna-se difícil.

Os cigarros (em muitos mercados, a única forma amplamente disponível e sem restrições para consumir nicotina) não permitem precisão. A combustão libera nicotina juntamente com milhares de compostos tóxicos, e a dosagem está longe de ser controlada. Se as regulamentações removerem ou restringirem severamente os produtos que permitem a seleção da concentração de nicotina e a ingestão flexível, incluindo dispositivos de vaporização de sistema aberto, o controle da dose no mundo real se tornará muito mais difícil.

Ao mesmo tempo, é contraditório defender a "pesquisa com baixas doses" em periódicos acadêmicos e, ao mesmo tempo, apoiar políticas que eliminam a possibilidade prática de escolher baixas doses no dia a dia.

A redução de danos exige coerência regulatória.

Este texto não defende que a nicotina deva ser usada por não fumantes como um estimulante cerebral. As evidências não sustentam essa conclusão. A nicotina causa dependência e acarreta riscos.

Mas se a discussão científica inclui a administração de baixas doses, então o debate político não pode ignorar o acesso. A administração de pequenas quantidades de nicotina só é viável se os adultos que precisam administrar nicotina (por qualquer motivo, seja para parar de fumar com mais eficácia ou mesmo para fins médicos) tiverem acesso a ferramentas regulamentadas que permitam o ajuste da dose e a transparência. Caso contrário, ficamos com a contradição de que, enquanto a pesquisa e a ciência discutem a precisão, a regulamentação elimina os próprios mecanismos que a possibilitam.

À medida que a pesquisa sobre a nicotina continua a evoluir e mais evidências sobre seus potenciais mecanismos e possíveis benefícios são descobertas, os governos se deparam com uma realidade incontornável: se aplicações terapêuticas ou cognitivas específicas em baixas doses forem validadas e puderem ser administradas de forma aberta e responsável, os marcos regulatórios precisarão se adaptar. 

Não faria sentido reconhecer a administração controlada de nicotina em pesquisas clínicas enquanto se mantêm políticas rígidas que impedem o acesso de adultos a produtos regulamentados e com dosagem ajustável.

A ciência é cheia de nuances. A regulamentação também deveria ser.

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